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A esperança e o desânimo na vida consagrada
Aprenderá a conhecer-se e a confiar nas faculdades que Deus lhe deu e ensinará a descobrir também os talentos e habilitar as qualidades necesssárias para viver a esperança.


Por: Germán Sánchez Griese | Fuente: Catholic.net




Entre o céu e a terra, ou a vida consagrada.



A pessoa consagrada é a que deseja fazer com que Deus esteja presente nesta terra. É aquela pessoa que, apaixonada de Jesus, procura envolver-se Dele cada dia mais e compartir este amor com todas as pessoas. Toda a teologia da vida consagrada resume-se nestes desejos.¹ Para levar adiante este desejo são necessários muitos meios como a profissão religiosa, os votos, uma vida espiritual, um certo tipo de vida guiada por um horário, uma forma de viver a vida consagrada que está definida pelo próprio carisma, um trabalho característico que conforma a missão.



Podemos afirmar assim que sua vida circula-se entre o céu e a terra. As pessoas consagradas, como aspirantes à santidade colocam toda a sua vida e suas ações nos bens eternos. Benedito XVI, em sua encíclica Spe salvi, explica precisamente o fundamento e o mecanismo da esperança cristã. Convêm realizar uma revisão completa deste conceito, em muitos casos de pretextos, com o propósito de viver de acordo ao que professamos e colaborar para que outros vivam, especialmente aqueles que têm a responsabilidade de formar outras religiosas ou a de animar com sua autoridade uma comunidade.



Diz Benedito XVI que a esperança tem seu fundamento na concepção da vida. “A vida não é um simples produto das leis e da casualidade da matéria, mas em tudo e, contemporaneamente, acima de tudo há uma vontade pessoal, há um Espírito que em Jesus Se revelou como Amor.” ² A vida portanto obedece um desígnio divino e nós como pessoas fomos colocados neste mundo não como um luxo ou sob uma casualidade, mas sim como fruto de um desígnio divino e com uma missão muito precisa que cumprir. Esta missão, que em muitos casos se identifica com uma vocação na vida³, que nasce do Pai através de uma especial intenção criadora, se concretiza para a pessoa consagrada em um estilo de vida muito especial que vê a vida e atua com características bastante peculiares. Mas começamos a explicar em primeiro lugar o sentido da vida. Se a vida não é um jogo de sorte, nem fruto da casualidade, se estamos aqui com o fim de cumprir com um desígnio divino, necessitamos encontrar as chaves da leitura que nos desvende este mistério. Seria chocante para a razão dizer que existe um projeto preparado por nós, mas que não podemos conhecê-lo, ou que conhecemos apenas um pouco. A intenção divina perderia sua seriedade, se prestaria à interpretação pessoal ou ao vai-e-vem das circunstâncias e da cultura.



Jesus Cristo revelou o mistério da vida porque Ele mesmo a viveu, ultrapassou o umbral da morte e nos revelou o verdadeiro significado da vida. “Pero yo he venido para que las ovejas tengan Vida, y la tengan en abundancia.” (Jn., 10, 10). O significado e também o caminho da vida sobrenatural. “O verdadeiro pastor é Aquele que conhece também o caminho que passa pelo vale da morte; Aquele que, mesmo na estrada da derradeira solidão, onde ninguém me pode acompanhar, caminha comigo servindo-me de guia ao atravessá-la: Ele mesmo percorreu esta estrada, desceu ao reino da morte, venceu-a e voltou para nos acompanhar a nós agora e nos dar a certeza de que, juntamente com Ele, acha-se uma passagem. A certeza de que existe Aquele que, mesmo na morte, me acompanha e com o seu « bastão e o seu cajado me conforta », de modo que « não devo temer nenhum mal » (cf.Sal 23[22],4): esta era a nova « esperança » que surgia na vida dos crentes”&sup4.





Nasce por tanto nos cristãos a certeza de que a vida tem um fim preciso. Não estamos aqui por casualidade e a vida terrena não se destrui, senão que se transforma, como lembra um dos prefácios da missa de difuntos. A vida por tanto cobra um significado muito especial porque tem um fim muito específico que é o de chegar à Pátria eterna. Espera-se, assim, uma concreta realidade, graças à promessa que nos fez Cristo e graças também ao testemunho de sua vida e de sua morte que nos mostra claramente aquel que deve ser o porquê de nossa existência. Este porque é conhecido como a substância da vida, dado que em tal substância o cristão coloca tudo o que seja necessário para viver. Assim como a comida é a substância que da sustento para toda a vida. Os cristãos esperamos na vida eterna pela fé&sup5, e graçasa essa esperança não só nos mantemos vivos, mas também damos fundamento para nossa obras. A esperança converte-se desta forma no fim de propósito de nossa existência e na razão de nossas atividades. Se pela fé acreditamos no que esperamos. A fé atualiza precisamente o que esperamos. E, mais ainda, pela fé sabemos que nossas obras não são insignificantes, mas possuem uma relação direta com a esperança. Pela fé eu posso estar certo de que as obras realizadas serviram como meios para alcançar a promessa da vida eterna.



A vida do católico então toma um novo rumo. Pela fé estará sempre garantido e em qualquer lugar o seu trabalho será pela glória de Deus, garantindo assim a promessa feita por Ele de alcançar a vida eterna. Não importam por tanto os trabalhos, as dores, a materialidade do trabalho. O que sim importa é manter sempre o olhar Naquele em quem se espera e realizar todas as coisas com o fim de alcançar a vida eterna. “Portanto, quer comais quer bebais ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus.” 1Cor. 10, 31.



Este tipo de vida a podemos definir como uma vida suspendida entre o céu e a terra, diferente da sociedade romana que via no trabalho manual uma maldição ou uma atividade própria dos escravos, a visão do cristão contribue para o trabalho a forma de realizar nesta terra a promessa da vida eterna. A esperança da vida eterna a qual estão chamados todos os cristãos e que não se renova simplesmente apartir do estante da morte. Esta realidade da vida eterna inicia-se desde já, na medida em que se detenha a mirada no enorme horizonte da eternidade.



Mas quando falta esta visão de esperança, então se começa a sentir uma fratura entre o que é e o que se espera, entre o que se professa e o que se vive, entre o que se prometeu viver e o que agora se vive.



As fraturas da esperança ou fenomenologia da vida consagrada na Europa





É preciso lembrar que a pessoa consagrada não está isenta de cair na desesperação, na angústia, no pecado da desesperança. A profissão religiosa não é um “amuleto” contra a desesperança, dado que seu espírito segue vivendo neste mundo e muitas vezes é solicitado por diversas provas, seja para purificar sua esperança, seja para caminhar mais rápido detrás das pegadas do Senhor.



A religiosa, mediante os votos perpétuos prometeu seguir o Senhor na pobreza, castidade e obediência, isto é, prometeu por todos os seus bens não nesta terra, senão nos bens eternos. Pela pobreza renúncia o colocar sua esperança nas coisas materiais, garantindo todo seu porvenir na Providência. Pela castidade coloca seu coração nas mãos do Senhor, a quem têm e considera como seu único amor. E pela obediência dispõe sua vontade na vontade de Jesus, para fazer o que Ele quer, não tanto para renunciar o seu livre arbítrio, mais sim para colocar esse livre arbítrio em função da vontade de Deus. Os três votos, se são vivenciados com radicalidade configuram uma personalidade bem definida. Se a pessoa consagrada é aquel que deposita sua esperança em Jesus então se move, ou deveria mover-se não nas cordenadas do homem carnal, do Adão, do homem velho, mais sim nas cordenadas do homem espiritual, isto é de Jesus&sup6, do homem novo. Jesus se converte por tanto em sua única possessão, em sua única esperança e assim pode apropiar-se da admonição paulina, “já não sou eu quem vivo em mim, é Cristo que vive em mim.” Todo seu ser psíquico e espiritual, isto é, tudo o que conforma seu pensar, seu querer e seu sentir (homem psíquico), e tudo o que conforma a vida de sua alma (homem espiritual), vem de alguma maneira “arrastado” pela esperança.



Se como diz João Paulo II, “o homem não pode viver sem esperança, sua vida, condenada à insignificância, se convertirá em um ser insuportável”&sup7, a mulher consagrada vive também esta tensão saudável para viver sob o signo da esperança, isto é, pensar, atuar e sentir de acordo a Jesus Cristo, a única esperança. Esta forma de vida de acordo a esperança, não é um dado subjetivo, nem deixado à interpretação pessoal de cada religiosa. Viver de acordo à esperança é viver de acordo com os ensianmentos de Jesus Cristo, dado objetivo da fé. Se estabelece portanto uma tensão saudável entre o dado subjetivo, que é a pessoa, e o dado objetivo que é a vida e os ensinamentos de Jesus Cristo. Viver e atuar de acordo com Jesus Cristo se converte por isso em um modelo de vida bastante claro e objetivo. Um modelo de vida guiado pela objetividade de Jesus Cristo.



As religiosas têm uma possibilidade enorme de viver de acordo à objetividade de Jesus Cristo, e por isso a de viver com a esperança, quando vivem de acordo ao seu próprio carisma. Se “o carisma mesmo dos Fundandores se revela como uma experiência do Espírito (Evang. Test. 11), transmitido aos próprios discípulos para ser por eles vivida, custodiada, aprofundizada e desenvolvida constantemente em sintonia com o Corpo de Cristo em crescimento perene”, a mulher consagrada vive a esperança na media em que vive dentro do carisma, na medida que faz do carisma o seu ambiente vital. Este ambiente lhe permite não por sua esperança nas coisas que não são de Cristo, dado que a experiência do Espírito que faz o fundador se materializa em coisas muito concretas, como um estilo de vida, uma missão, umas precisas relações na vida fraterna em comunidade. Este é o dado objetivo que lhe permite viver a experiência de Jesus Cristo, ao estilo do Fundador. Podemos dizer por tanto, que a religiosa que coloca sua vida no carisma ou que faz do carisma sua vida, aprenderá a viver a esperança e com a esperança, ao estilo com a que a viveu seu Fundador.



Os problemas começam quando a mulher consagrada devida às portad pelas que vai passando na vida, provas normais que a deveriam purificar para viver mais de acordo a vida do Espírito, começam a enfraquecer, a debilitar-se e assim em uma forma imperceptível vão se distanciando da esperança que é Jesus Cristo para viver as esperanças do mundo. E se é verdade aquele adagio que diz que soos o que esperamos, paulatinamente esta mulher consagrada, em lugar de converter-se cada vez mais em Cristo, se converte no que depositou sua própria esperança.



Este processo não se transforma de um dia para outro na vida consagrada. Pouco a pouco se irá forjando no decorrer de sua história como consagrada. Se inicia com uma dúvida, com uma insegurança, com uma falta de identidade que vai abrindo uma rachadura na personalidade da mulher consagrada. Não se trata de que não possa ter uma dúvida ou um momento de fraqueza, o problema é quando se admite essa dúvida e essa falta de segurança e já é parte da vida ordinária. A vida consagrada já não é essa pedra monolítica assegurada em Jesus, como uma pedra onde se deve edificar uma casa, como lembra o evangelho. A vida se converte em areia movediça onde tudo pode cair. Contrui-se a vida na dúvida, na incertidão ou na nostalgia de um passado perdido e que jamais regressará.&sup9 O início desta fratura da esperança acontece porque no homem, segundo São Paulo, existe sempre uma tensão por viver de frente ao homem novo, isto é Jesus, ou de frente ao homem velho, isto é Adão. O homem é um ser espiritual chamado a viver de acordo ao espírito de Jesus, mas que encontra-se sempre em tensão por seguir este espírito, visto que se sente atraido pelo espírito do mundo, de tal forma que pode chegar a dizer como São Paulo: sigo o mal que não quero e não faço o bem que quero. Esta tensão vive-se também na esperança, dado que o homem novo procura colocar sua esperança somente em Jesus, mas o homem velho procura depositar sua esperança nos sucedâneos desta esperança. Assim, termina sendo uma fenomenologia diferente onde o homem acredita que confiou sua esperança em uma rocha firme, mais em realidade não fez outra coisa que colocar sua esperança em areia movediça.¹0 Recorramos assim a fenomenologia da vida consagrada que atualmente sucede na Europa e descubriremos, infelizmente, estas fraturas da esperança.



Falta de esperança cristã



A situação atual pela qual atravessa a vida consagrada no Ocidente e particularmente na Europa não é muito incentivante. mas que enunciar as situaçãoes pelas quais está passando e que pegam brutalmente, devemos fazer-nos cargo do que essas situações significam ou já significaram para as religiosas às quais lhes foi possível viver os melhores anos de sua vida na época do Concílio.



Fazendo as contas, podemos constatar que as religiosas européias que hoje vivem nas casas que a congregação destina para as idosas, têm uma margem de idade de 75 anos. Isto significa que em 1970, quando apenas se começava a por em prática real e verdadeira as diretivas do Concílio, interpretadas por cada congregação ou instituto religioso, estas religiosas tinham uma idade aproximada de 35 anos, isto é encontravam-se como jóvens adultos em uma das melhores épocas de sua vida. Deixando de lado a inexperiência da juventude, tendo feito uma experiência de vida consagrada e de vida apostólica, se disponiam a iniciar com grande fecundidade uma das melhores etapas da vida. Ainda que deixando os problemas de normais da idade e contantod com todas as forças que a juventude permite naqueles anos, podiam com seu esforço e trabalho fazer que a congregação caminhasse em um passo adiante na sua história em direção a eternidade. mas justamente no momento de começar a dar o melhor de sí mesmas, para elas e para a congregação, encontravam-se na incertidão. A congregação esta apenas dando os primeiros passos para adaptar-se ao Concílio Vaticano e são anos de incertidão, de prova, de tentativas, de experiênças, muitas das quais terminam fracassadas ou com resultados insatisfatórios. Imaginem que na década de setenta as baixas da vida consagrada foram em massa muitas vezes, abandonaram obras de apostolado que já tinham sido o baluarte e uma clara forma de expressar o próprio carisma, mudaram as formas estabelecidas da vida fraterna de comunidade, e a final, uma coisa tão simples mas tão transcedental para a identidade da vida consagradas como era o hábito religioso foi em muitos casos abandonado por completo.



Se as religiosas que deviam levar sobre seus hombros o peso da congregação fossem presas das desorientação e da dúvida daqueles anos, é lógico pensar que, precisamente nestes anos em que devia começar a fundamentar sua congregação somente no Senhor, ao viver em um estado de soçobra contínua dado que não se sabia que poderia passar ao dia seguinte no apostolado, na vida fraterna na comunidade ou no governo da congregação, não puderam colocar as bases de uma esperança absoluta e foram apegando-se às pequenas esperanças que o mundo lhes oferecia, acreditanto que seriam esperanças definitivas.



Quem coloca sua esperança em tudo, menos no Senhor, termina por perder a esperança por completo. A religiosa que há trinta e cinco anos deveria ter começado a cimentar sua vida consagrada em bases sólidas, com uma só esperança em Jesus Cristo, não aprendeu jamais a fazê-lo porque constantemente estava mudando as expectativas de sua vida. Passou o tempo e agora vive com um grande desânimo, porque se da conta que a vida se foi e agora que se aproxima a casa do Pai não deposita sua segurança em Jesus. Ao chegar a este estado da vida pode observar cansaço, tédio, falta de ilusão pela vida consagrada. São religiosas que estão no convento, mas que já não são religiosas. Escapou de suas mãos não somente a juventude corporal mas também a da alma. Esperam resignadas o chamado de Deus para deixar este sem qualquer remorso. Não dão problemas graves, porque sua vida é um problema sem alguma solução aparente. Poderia aplicar-se a ela o que disse João Paulo II aos sacerdotes sobre a pastoral vocacional na Europa: “E é indispensável que os próprios sacerdotes vivam e atuem em coerência com sua verdadeira identidade sacramental. De fato, se a imagem que dão de sí mesmos fosse opaca ou débil, como poderia induzir aos jóvens a imitá-los?”¹1



O fatalismo



Como resultado desta falta de esperança nos deparamos no Ocidente com pessoas consagradas que por não ter aprendido a exercitar a esperança em Jesus Cristo, “o único que não desilusiona”, foram perdendo a possibilidade de relativizar todos os eventos e vê-los em função de Jesus Cristo, caindo em uma espécie de fatalismo, pensando que Deus se encarregará de tudo, ou que já nada tem sentido ou tudo já está determinado pela Providência, perdendo o ânimo e o sentido da existência.



O fatalismo se propagou muito entre as religiosas pela situação tão difícil pela que passa a vida consagrada. Convidadas a realizar em sí mesmas uma maternidade espiritual, encontram-se com as mãos vazias ao final de sua vida, por ter colocado sua esperança nas esperanças humanas. Pensar somente em trabalhar, dando à oração pouco espaço na vida, ver erodindo suas ilusões colocando sua esperança em coisas efêmeras, que elas acreditavam plenamente, origina a doença da esperança, que já não sabe esperar. Perde o sentido cristão de que Jesus Cristo é o Senhor da história, perdento por tanto o sentido de sua história pessoal.



Ao ver-se perdida desta forma, e como o homem não pode viver sem esperança, caem na única ilusão que é o fatalismo, pensando que já não tem sentido seguir esperando, ou seguir lutando. Julga com infantilidade ou ilusão de adolescente os planos da evangelização, as iniciativas pastorais ou simplesmente a vida de consagração. O fatalismo se apoderou dela e o único que espera, se é que existe ainda a capaciade de esperar, é a saída deste mundo, mais ou menos em forma decente e religiosa.



Vive seus compromissos da vida consagrada em forma mais ou menos messiânica, mas perdeu esse primeiro e fresco amor, lembrando as palavras do Apocalípse: “Porque não eres nem frio nem quente, mais tíbio, o vomitarei da minha boca.”



O trabalho da superiora da comunidade.



O primeiro que deve fazer a superiora da comunidade é aceitar o fato de que se encontra com pessoas que perderão toda a ilusão de vida, doentes e rendidas pelo desânimo. Sem esta toma de consciência é difícil que possa ajudar às religiosas a salir deste estado, porque se asemelharia ao médico que de frente a uma apendicite recomenda somente uma aspirina para aliviar a dor. Não deve cair nos extremos de escandalizar-se frente à constatação dos fatos, nem tão pouco deve minimizá-los. Simplesmente deve aceitá-los como parte do tempo que lhe possível viver e os deve enfrentar. Para isto, vale a pena recordar e comentar o que ao respeito menciona o documento do Magistério da Igreja sobre o serviço da autoridade e a obediência: “A autoridade é chamada a infundir coragem e esperança nas dificuldades. Como Paulo e Barnabé encorajavam seus discípulos ao ensinar-lhes que « é necessário passar por muitos sofrimentos para entrar no Reino de Deus » (At 14,22), assim a autoridade deve ajudar a acolher as dificuldades do momento presente, recordando que elas fazem parte dos sofrimentos com que amiúde se cobre o caminho que conduz ao Reino.”¹2



Uma das prioridades da superiora da comunidade deve ser o enfrentar a situação de desânimo pela que passam algumas ou todas as religiosas da comunidade. A superiora não deve dar as costas para esta situação, desde já dolorosa e em muitos casos grave. Não fazer caso a esta situação significaria que a superiora também caiu no desânimo, pensando que pouco ou nada pode fazer pelas religiosas que depois de toda uma vida consagrada, se deixam conduzir pelo fatalismo e o derrotismo. É verdade que as religiosas que caíram no desânimo não querem sair desse estado ou não vêm os motivos pelos quais devam novamente viver a virtude da esperança. Esta postura é contagiosa e a primeira que pode ser contagiada é a superiora. O contagio se adquire quando a superiora pensa da mesma maneira que as religiosas ao crer que já não pode mudar a vida dessas religiosas e que, pelo bem da paz – como muitas vezes pode acontecer – é melhor deixar as coisas como estão, o famoso laisesz faire, laisesz passe dos franceses.



A supeirora da comunidade deve sacudir essa atitude passiva e colocar as mãos à obra. Parte de sua missão é ajudar a essas religiosas a enfrentar o desânimo e a desesperança, que não são doenças psicológicas, mas como já dissemos, são doenças fundamentalmente espirituais. O primeiro que deve fazer é rezar pelas almas encomendadas a ela que se encontram nestas situações de desânimo ou de total abandono na vida consagrada. É verdade que muitos casos a intervenção da superiora requererá uma presença constante, dar uma mão aos meios ordinários ou extraordinários para reviver o prazer de ter sido elegida pelo Senho para ser sua esposa. Entretanto pouco ou nada duradouro poderá alcançar se não intercede por essas almas na oração. A superiora deve lembrar que ela, como Moises, deve levantar os braços para o céu, para que as religiosas que padeçam destas doenças do espírito sanham vitoriosas da luta que devem enfrentar. Deve lembrar que uma das missões que tem é a de santificar a comunidade mediante “o incremento da vida de caridade conforme ao modo de ser do Instituto.”¹3



Mediante a oração, a superiora da comunidade expressa sua presença e seu cuidado por estas religiosas. Entrentanto, pelo tipo de doença espiritual que padecem estas religiosas é necessário que a religiosa se faça presente na vida delas, de tal maneira que tomem consciência de que a superiora participa de seus sofrimentos, suas angústias e sua solidão. Para isto, a superiora deve dar o tempo necessário para estar com elas, conversar com elas, rezar com elas e assim dar-lhes novos ânimos. Este tipo de doença não se cura de um dia para o outro, necessita de uma infinita paciência e de uma constante presença. As religiosas doentes, como parte de sua doença, pensam e estão certas de que ninguém se preocupa por elas. Por tanto, a presença constante, amorosa e fiel da superiora, pode fazer muito para curar suas feridas: “O guia da comunidade é como o bom pastor que entrega sua vida pelas ovelhas e nos momentos críticos não retrocede, mas está presente, participa nas preocupações e dificuldades das pessoas confiadas aos seus cuidados, deixando-se involver em primeira pessoa. E, igual que o bomo samaritano, está atento para curar as possíveis feridas.”¹4



Uma possível origem desta doença é atividade apostólica que realizam as religiosas durante toda a sua vida e que, em um momento determinado vêm suspendida por motivos de doença ou ansiedade. Quem durante toda a sua vida, a pesar das mudanças e as constantes incertezas que teve que enfrentar manteve como identidade de sua vida a atividade, isto é, fez da atividade a razão e o fundamento da sua vida, é lógico que ao deter esta atividade experimenta uma lacuna ou um vazio que agora nada nem ninguém poderá preencher. Portanto, não é o tempo oportuno para que a superiora inicie uma catequese sobre o ativismo. É o tempo para que lhe faça ver à religiosa a beleza de pertencer ao Senhor na vida consagrada, pura e simplesmente pelo fato de que foi Ele quem teve a iniciativa de chamá-la. Recordar-lhe-a a gratidão do chamado e verá que a forma mais adequada de responder a tal chamado não é com a atividade, mas sim com o amor. Muitas destas religiosas, no umbral da vida se perguntaram constantemente pelo sentido de sua vida, pelo sentido de tudo o que já fizeram. Trabalharam, se entregaram e a congregação deve ser grata com elas. Porém não podem escapar do sentir essa angústia em seu interior quando hão viveram a atividade apostólica como um sinal de sua consagração. Em um mundo utilitarista, que tudo valoriza em função do que produz, estas mulheres consagradas também podem serem presas desta forma de pensar. A superiora da comunidade lhes fará ver que mas além do aspecto utilitáio está o aspecto do amor. E lhes ajudará a tomar consciência desta nova dimensão de sua vida consagrada, a dimensão do amor: “Não são poucos os que hoje se preguntam com perplexidade: Para que serve a vida consagrada? Por quê abraçar este gênero de vida quando existem tantas necessidades no campo da caridade e da própria evangelização as quais é possível responder também sem assumir os compromissos peculiares da vida consagrada? A vida consagrada não representa tal vez uma espécie de « superficialidade » de energias humanas que seriam, segundo um critério de eficiência, melhor utilizados em bens mais proveitosos para a humanidade e a Igreja? Estas perguntas são mais comúns em nosso tempo, induzidas por uma cultura utilitarista e tecnocrática, que tende a valorizar a importância das coisas e das mesmas pessoas em relalão com sua « funcionalidade » imediata. mas interrogantes semelhantes sempre existiram, como demonstra de modo eloqüente o epsódio do evangelho da unção de Betânia: « Entäo Maria, tomando um arrátel de ungüento de nardo puro, de muito preço, ungiu os pés de Jesus, e enxugou-lhe os pés com os seus cabelos; e encheu-se a casa do cheiro do ungüento. » (Jo 12,3). A Judas, que com o pretexto da necessidade dos pobres se lamentava de tanto desperdiço, Jesus lhe responde: « Deixe-a » (Jo 12,7). Esta é a resposta que será sempre válida para a pergunta de tantos, ainda de boa fé, que realizam sobre a atualidade da vida consagrada: Nãos se poderia dedicar a própria existência de maneiras mais eficiente e racional para melhorar a sociedade? Eis aqui a resposta de Jesus: « Deixe-a ». A quem lhe é concedido o dom inestimável de seguir mais de perto ao Senhor Jesus, é óbvio que Ele pode e deve ser amado com um coração indivisível, que seja entregue a Ele toda a vida, e não somente alguns gestos, momentos ou certas atividades. O ungüento precioso derramado como puro ato de amor, mais além de qualquer consideração « utilitarista » , é sinal de uma super-abundância de gratidão, tal como se manifesta em uma vida gastada em amar e servir ao Senor, para dedicar-se a sua pessoa e a seu Corpo místico. Desta vida « derramada » sem poupar nada se difunde o aroma que envolve toda a casa. A casa de Deus, a Igreja, hoje como ontem, está adornada e embelecida pela presença da vida consagrada. O ue aos olhos dos homens pode parecer uma superficialidade, para a pessoa seduzida no segredo de seu coração pela beleza e bondade do Senhor é uma óbvia resposta de amor, exultante de gratidão por ter sido admitida de maneira totalmente particular ao conhecimento do Filho e à participação em sua missão ddivina no mundo. «Se um filho de Deus conhecesse e desejasse o amor divino, Deus incriado, Deus encarnado, Deus que padece a paixão, que é o sumo bem, lhe daria tudo; não somente deixaria as outras criaturas, mais também a sí mesmo, e com todo seus ser amaria deste Deus de amor até transformar-se totalmente no Deus-homem, que é o sumamente Amado ».”¹5



As ajudas humanas



Se o desânimo é uma doenças espiritual, alguns dos remédios mais eficazes apontam para os meios humanos. A superiora da comunidade não deve esquecer a unicidade do homem e no caso do espíritu destas religiosas estar doente, uma parte da cura está no meio humano. Já mencionamos como a companhia e a constante atenção da superiora da comunidade, que é um meio humano, pode sanar em partes a doença do espíritu. Por isto na seqüência mencionaremos alguns outros meios humanos que a superiora pode utilizar para curar estas feridas espirituais.



Ajudar a acreditar no que fazem e no que são.



Alessandro Pronzato¹6 conta uma história verdadeiramente divertida. Trata-se de um sacerdote que exerce seu apostolado com muita dedicação em uma casa para idosas. Preparado de uma infinita paciência e bondade, ganhou o coração de todas as inquilinas... a exceção de somente uma. Teimosa e sem qualquer sinal de conversão, permanece distante do sacerdote e das práticas de devoção, culturais e sacramentais da tal casa para idosas. Já lhe disse claramente ao sacerdote que dela não deve esperar nada. O bom sacerdote, com muita calma e tranqüilidade, sem qualquer falta de educação continua seu trabalho, conversando, comprimentando e enriquecendo-a de boas maneiras. Uma vez que visita seu quarto para levar a comunhão à vizinha com quem compartia o quarto acontece que esta idosa reage, depois três anos de negar uma atenção do sacerdote, tem a delicadeza de colocar-se de pé quando entra o padre portando o viático. Se levanta e inclina a cabeça. O sacerdote não pode dizer nada, porque neste momento leva a Jesus Cristo Eucaristia, mais desfruta internamente e está disposto a continuar o trabalho por outros três anos, ainda que seja somente para arrancar desta idosa outro gesto de religiosidade.



A esperança não se improvisa, não se inventa, se constrói pouco a pouco e é necessário convidá-la para ser uma companheira no camino da vida. Dissemos que pelo simples fato de ter fé não significa que automaticamente temos esperança. É necessário trabalhar, lutar, colocar os meios adeqüados. “A esperança é audaz, pois acredita que o impossível para o homem é possível para Deus (Mt 19,26), e é consideravelmente transcendente: deseja e procura a vinda de Jesus Cristo, o triunfo do Reino de Deus, a plena união com Deus, a liberação de todo o cosmos (Rm 8, 19-25).”



Um deste meios é fazer-lhes ver à religiosas o sentido do que são e do que fazem. Seus sacrifícios, suas dolências, seus padecimentos e suas limitações no plano de Deus têm um grande sentido e elas podem recuperar a esperança em suas vidas quenado aprendem a ver com os mesmos olhos de Deus as circunstâncias pelas que estão passando. Todos os atos da pessoa consagrada, pelo fato de ter-se consagrado, fluem na glória de Deus e de alguma maneira são meios eficazes para a chegada do Reino de Deus nesta terra. Quem pensa assim produz uma corrente de pensamentos positivos que a conduzem a esperar algo bom, algo positivo de cada ato, chegando inclusive à audácia, tão necessária na Europa descristianizada que hoje conhecemos. Se estabelecem por tanto duas posturas a partir de um mesmo fato. A esperança ou a desesperança dependerá da visão que se têm, não da realidade, senão do que faz um. Se a pessoa acredita que o que faz é de utilidade para que Jesus Cristo se faça presente na sociedade, para o triunfo de seu reino, então começa a trabalhar com a mirada em direção ao ideal, não somente na realidade. Quem se pergunta sem fundamento sobre o que faz, não acredita que a obra que realiza pode atribuir algo positivo ao mundo, a sociedade, facilmente cairá então no desengano, a desesperação e a desilusão. Sem levar o caso ao extremo, diremos que será uma pessoa destinada a ir levando, a carregar a vida, a simplesmente vivê-la.



Para acredita no que se faz, é necessário ter um ideal. A mulher consagrada, sabemos bem que têm muitos e nobres ideais em sua vida consagrada. Mais para que este ideal abrace toda a vida da consagrada é necessário que ela verdadeiramente acredite neste ideal.



A superiora da comunidade pode ajudá-la a recuperar o ideal de sua vida, mediante a consideração de três elementos: o dieal deve ser conhecido, o ideal seja desejado, e o ideal possa ser realizado.¹7 Quando o ideal pode reduzir-se a uma meta clara e objetiva, a pessoa conhece com certeza para onde deve ir. Como dizia Platão, não existe um bom vento para quem não sabe em que porto atracar. Quando se sabe o ponto de chegada, então é possível estabelecer um destino, um caminho. A pessoa poderá desenha, ela própria ou com a ajuda de outros, os melhores meios para alcançar o ideal. Aproveitando as qualidades que têm, ou ensaiando novas, é provável que a mulher consagrada se encaminhe a uma direção bastante precisa.



Para que o ideal vá tomando forma, é necessário que a mulher consagrada deseje alcançá-lo. Aqui falammos novamente da diferença entre saber e querer. A vontade se move somente por aquilo que a mente ve como um bem. Se a mente lhe apresenta a vontade um menú de ideais, mais não se apaixona por nenhum deles, a vontade não se move. É necessário que amente se apaixone de um ideal, veja o bem que lhe possa trazer a possessão desse ideal. Somente então a vontade, como um elástico a disposição da mente, se moverá para conseguir esse ideal, que a mente já o considerou como bom, apetitoso e desejável. A superiora da comunidade pode ajudar aquela religiosa doente que volte a apaixonar-se do ideal e desencadeie essa corrente positiva em todo seu ser, que se chama ampor pelo Amado.



Por último, o ideal deve estar ao alcance da mão da mulher consagrada, especialmente se esta doente. Não tem que ser um ideal tão alto que seja inacessível. A mente se da conta disto e ao notar que não pode alcançá-lo, perde ainda mais o desejo do que já tinha perdido. Assim que a vontade, ao não perceber já o ideal como algo desejável, deixar de mover os recursos necessário para a aquisiçaõ de tal ideal. Convêm por tanto que a superiora da comunidade deixe acessível e desejável o ideal. A superiora da comunicade pode ajudar-se nesta tarefa pensando como as crianças nos prestam pequenos ideais para ir formando sua vontade. Da mesma forma ela pode ir apresentando ideais acessíveis a estas religiosas para ir formando sua vontade. Da mesma forma ela pode ir apresentando ideais acessíveis a estas religiosas de tal maneiras que possam recuperar pouco a pouco a virtude da esperança.



O carisma da congregação pode ser considerado um iedal para a mulher consagrada. Ideal que pode ajudá-la a salir da desesperança, mais sempre com a condição que conheça bem o carisma, o deseje alcançar e seja acessível para a religiosa doente. Conher o ideal não é saber de memória as Constituições ou estar informada das últimas disposições do Capítulo Geral. Conhecer o ideal é saber como pode aplicá-lo na vida cotidiana, em sua situação atual e como o ideal faz possível a atualização das promessas de Cristo e as bem-aventuranças. Um determinado trabalho apostólico à medida de suas forças, a celebração de um ato litúrgico, a obra aparentemente mais simples, podem ver-se com uma ótica diferente quando é parte do carisma e quando se vêm como meios para alcançar o ideal. Desta maneira, a mente apresenta à vontade como um bem a conseguir, e se este bem se percebe como possível, imediato, e desta maneira é bastante provável que a mulher consagrada começe a viver sua vida consagrada com uma tonalidade de esperança. Acredita no que faz, porque o que faz é parte do seu ideal.



Alegrar-se com o que se faz



Parece que hoje em dia o pessimismo conta com todas as vantagens. Qem vê as coisas sob um ponto de vista de desastre é considerada uma pessoal racional, pensante, lúcido. Quem, pelo contrário somente vê os aspectos positivos, é taxado de utópico, loco, fora da realidade.



Não se trata de tapar o sol com a peneira e de não fazer caso à situação que vemos ao redor de nós. Quem na vida religiosa feminina ousa dizer que as coisas vão bem, muito bem, imediatamente é sujeito de olhares inquisidores ou pelo menos recebe um juizo caritativo: “Coitado! Se vê que não conhece a situação.” Está bem, as coisa não vão tão bem como deveriam ir, mas o que pode ganhar o negativista que afirma isto? Em um bosque eu posso fixar meu olhar no ramo verde, florido, lindo, ou posso fixar-me nos milhares de troncos queimados, secos e feios. Jamais mudei a realidade: é um bosque queimado. Mas meu estado de ânimo muda quando vejo o ramo verde, ainda que seja somente um, no meio das cinzas.



O pessimismo é o estado de ânimo que tende a ver somente nossas fantasias. De um fracasso fazemos uma lei de vida, de um acontecimento infortuno tiramos conclusões definitivas. O pessimista que foi mordido por um cachorro pensa que todos os cachorros irão lhe morder. É uma atitude da mente que perde energias da pessoa e lhe faz ver aspectos negativos onde não têm.



A visão do cristão, e por ente, da mulher consagrada, deve ser uma visão de esperança. Mas não uma esperança vã e eterna, que nós conduz à morte, sem ter degustado, ainda que seja um pouco, esta esperança na terra. É para isto é necessário aplicar uma grande dose de otimismo, isto é, aprender a ver o lado positivo das coisas. Se teologicamente o mau é a ausência do bem e no mau não está Deus, porque Deus é o bem supremo, não adianta nada que cravemos nossa vista, nossa atenção, nossos pensamentos, nossos sentimentos, em uma palavra, todo nosso ser, no mau, em coisas negativas. Deus não está ai. Porém, quando prestamos atenção nos alvorejos do bem, por menor que sejam estes, vivemos a virtude do otimismo, que é a porta da esperança cristã. Eu imagino os primeiros cristãos nas catacumbas de Roma, que em meio das persecuções, apesar de ser minoria, se comunicavam com uma alegria extravasante comentando o progresso do Reino, as conversões, apesar de viver momentos difíceis de perseguição e de morte. O cristão sabe cultivar a visão do otimismo, porque buscando o bem nos acontecimentos, nas pessoas, em tudo, busca a Deus e abre as portas da esperança.



A superiora da comunidade ajudará a cultivar o otimismo no que realiza ou no que vivem as religiosas doentes. Estar alegres com o trabalho, ajudá-las para que realizem com pureza de intenção tudo sobre Deus, avançar o Reino de Jesus nesta terra e tornar a vida mais serena e positiva. Ensinar-lhes a rir-se de sí mesmas, de suas falhar e de seus achaques, de seus erros, de seus despistes. O alegrar-se com o trabalho e com tudo o que acontece na vdia, é ver as dificuldades e os momentos escuros não como dificuldades ou momentos oscuros, mais sim como desafios. Mas para conduzir esta transformação é necessário o otimismo, para buscar o bem e o lado positivo nessa dificuldade, nesse complicado momento.



Hoje a vida consagrada, por exemplo, com diz Graziella Curti, vive momentos de transição. “Um tempo silenciooso porque se descreve somente no ritmo do cotidiano. É um tempo doloroso, cumprido, porque aconteceram separarções, lutos.”¹8 Não podemos negar esta realidade que nós rodeia. E as conseqüências são graves, sabemos bem, porque as vezes é necessários abandonar algumas obras de apostolado, o Instituto deve reorganizar-se e descubrir o quê fazer com as consagradas que supram as que já estão na casa do Pai. Aque vêm a diferença entre viver o otimismo e cair na parcialidade da visão positiva. Quem vive a esperança cristã, sabe decifrar esta situação como uma disputa. São momentos difíceis, mas são momentos para agir. Está movida pelo ideal, o ideal do carisma que a impele na busca de novas opções, talvez nunca antes experimentada, para que o carisma siga adiante. Fará de tudo, antes que ver o Instituto morrer ou apagar-se em seu fervor, porque sabe que vivendo o carisma se realizam as promessas de Jesus Cristo, para ela é para muitas outras pessoas. Sua ação não é a de resignação, esperar melhores tempos, sentir-se minoria. Sua ação parte de uma visão positiva destas circunstâncias. Em épocas difíceis, ações de envergadura. O otimismo, confiança em sí mesma, no carisma e em definitiva, em Deus, que lhe permite tomar decisões audazes como as que tomou seu Fundador(a).Não procura o sensacionalismo ou a idéia de grandeza , mais levar adiante o carisma. Este é o seu objetivo e têm dele uma visão positiva.



Cultivar o otimismo ajuda também a manter uma higiene mental sã. Estar alegre com o que provoca paz e tranqüilidade. A mente está mais aberta para receber novas idéias. Vivendo o otimismo é possível gerar uma corrente positiva que nós faz ver a vida com mais calma, serenidade, paz, tranqüilidade aberta a Deus e ao seu Espírito.



Esperar de nós mesmos



Diz Alessando Pronzato que é muito mais necessário coragem para iniciar um trabalho que para terminá-lo. Começar um trabalho requer de uma grande confiança, não só no que se realiza, mais em sí mesmo.



Até agora falamos de construrir grandes empresas, de confiar na esperança, de cultivar o otimismo, mais até agora não falamos, ou tratamos pouco sobre a pessoa que deve ser otimista, confiar na esperança, construir grandes obras. Necessitamos por tanto dedicar um espaço de nosso estudo à pessoa que deve viver a esperança, isto é, a pessoa consagrada.



Hoje, muito mais que antes, o homem possui os recursos necessário para conhecer fenômenos e mistérios que antes eram ocultados. Foi e voltou da Lua, conhece muitas das doenças que permaneciam veladas em gerações passadas. Conta em suas mãos com uma tecnologia que jamais tinha sonhado. Entretanto, ainda não sabe quem é o homem. Todos os mistérios estão caindo, mas permanece desconhecido, hoje mais que nunca, o mistério do homem.



E talvez para a pessoa consagrada, permanece insistente este mistério. Pelo o estilo de vida que leva, a pessoa consagrada deve passar um bom tempo de sua jornada em silêncio, seja pelo silêncio da oração ou pelo que deve rodear a sua vida e seus afazeres. E o silêncio é o amgio perfeito para conhecer-se a sí mesmo. A pessoa consagrada descobre sua identidade diante de Deus. E ai também descobre a missão à qual está chamada.



“Conhece-te, aceita-te e supera-te” é a sentença de São Agostinho, válida para todos os tempos. Se a pessoa consagrada deseja viver a esperança, junto com todos os elementos que já mencionamos, deverá também confiar nela própria, nas faculdades que Deus lhe deu, como a qualquer homem, para levar adiante a missão encomendada. Se a missão a qual a mulher consagrada está chamada hoje em dia na Europa é a de ser portadora da esperança, ela mesma será a primeiroa em viver a esperança, confiando nas qualidades que Deus lhe deu, que poderá seguir. E todas as outras atividades que implicam na missão, necessáriamente passarão pelo matiz da pessoa.



Por tanto é necessário um conhecimento das faculdades da pessoa, intelgiência e vontade, de seus sentimentos e emoções, de sua psicologia, de suas possibilidades para empreender o caminho da esperança. Se a pessoa não acredita em sí mesma, não espera nela mesma, dificilmente viverá a esperança. Pode ser que existam patalogias que impessam o desenvolver uma adequada confiança em sí mesmo. Como todas as patologias deverão ser revisadas e curadas por especialistas. Mas em caso de não constar uma patologia que impessa a confiança em sí mesma, a pessoa pode e deve desenvolver uma adequada estima pessoal que a faça sentir mais segura de sí mesma no momento de enfrentar qualquer circunstância na vida.



Para desenvolver esta adequada estima de sí mesma, a mulher deve analisar qualquer bloqueio que lhe esteja previnindo de poder confiar nela mesma. Com a a ajuda da orientadora ou do acompanhamento espiritual – não tratamos neste caso de patologias psico-físicas, poderá desenvolver uma confiança que com suas próprias forças e ajudada por Deus poderá cumprir o que para ela é a vontade de Deus. Se por diversas razões a pessoa consagrada não aprendeu a confiar nela própria, convêm que antes dedique-se a trabalhar em um programa que trate deste ponto.



Aprenderá a conhecer-se e confiar nas faculdades que Deus lhe deu e tentará descubrir também os talentos e a trabalhar as qualidades necessárias para viver a esperança. Já que pode dar-se o caso de que por desconhecimento do adequado funcionamento das faculdades, a pessoa consagrada não se aventure em apostolados ou atividades próprias do seu carisma.



Aprenderá a superar o temor e o complexo de inferioridade que impedem o avanço da esperança na própria vida. Para vencer o temor se ensinará a atuar, concentrar seu medo, enfrentar o que lhe causa temor e analisar suas conseqüências, evitar cair em pânico, colocando pensamentos e sentimentos de confiança em Deus e em suas próprias habilidades.



E para vencer o complexo de inferioridade deverá conhecer-se acietando suas limitações mas também aceitando suas qualidades. Colocará metas de acordo a suas possibilidades e cada vez mais irá aumentando. Amputará de sua mente os pensamentos de comparação com outras pessoas, aceitando o fado de que ela é boa também para muitas coisas nas quais as outras não são. Recordará somentes os triunfos, tratando de cancelar as derrotas ou analizando objetivamente as possíveis causas destas.



Eleger a caridade.



É difícil expressar em umas poucas linhas uma fórmula para viver a esperança, porque poderiamos cair em uma simpleza sem sentido ou demagogia. Entretanto podemos encontrar uma idéia que reuna tudo o que dissemos e que possibilite que a mulher consagrada viva a esperança. Uma idéia que impolarize todo o seu ser, que faça aplicar o carisma, como centro de seu ser e como o cérebro de sua atuar. Podemos mencionar: “A chamada a viver a caridade ativa, dirigida pelos Padres sinodais a todos os católicos do Continente europeu, é uma síntese conseguida de uma autêntica entrega ao Evangelho da esperança. Agora proponho a você, Igreja de Jesus Cristo que vive na Europa. Que as alegrias e esperanças, as tristezas e angustias dos europeus de hoje, principalmente dos pobres e dos que sofrem, sejam também tuas alegrias e esperanças, tuas tristezas e angustias, e que nada do genuinamente humano deixe de fazer eco em teu coração. Observa a Europa e seu rumo com a simpatia de quem aprecia todo elemento positivo, mais que ao mesmo tempo não fecha os olhos diante do que é incoerente com o Evangelho e o denúncia com energia” ¹9



Vivendo a caridade, a mulher consagrada pode viver a esperança. Pela caridade a mulher consagrada ama a Deus com todo o seu coração e ao próximo como a sí mesma. Ao amar o próximo se esquece de seus temores, de suas angustias e procurará o melhor para o homem europeu, que é a vida eterna, as promessas de Jesus Cristo nas Bem-aventuranças.²0 Lutará por fazer que essas promessas se fecundem na vida de muitos europeus, descubrindo os novos nomes da pobreza: vazio do sentido da vida, solidão, dorga, sexo, bem-estar material desenfreado, individualismo exacerbado. E as fará suas para buscar uma solução e encontrará a única solução em Jesus Cristo, esperança que não desilusiona , sempre através do carisma, o que a Igreja deu de presente ao seu Instituto.



O amor poder fazer que hoje a mulher consagrada européia recupere a esperança.



NOTAS



¹ “Vita consecrata per consiiorum evangelicorum professionem est stabiis vivendi forma qua fideles, Christum sub actione Spiritus Sancti pressius sequentes, Deo summe dilecto totaliter dedicantur ut, in Eius honorem atque Ecclesiae aedificationem mundique salutem novo et peculiari titulo dediti, caritatis perfectionem in servitio Regni Dei consequantur et, praeclarum in Ecclesia signum effecti, caelestem gloriam praenuntient. ” Código de Direito canônico, c. 573 § 1.” 
² Bento XVI, Carta encíclica Spe salvi, 30.11.2007, n. 7.
³ “Reconhecer ao Pai significa que nós existimos a sua maneira, tendo-nos criado a sua imagem (Sab 2,23). Aqui contém a fundamental vocação do homem: a vocação à vida e a uma vida concebida ao instante a semelhança divina.” Obra Pontificia para as vocações eclesais, Novas vocações para uma nova Europa, 6.1.1998, n. 16a.
&sup4 Bento XVI, Carta encíclica Spe salvi, 30.11.2007, n. 6.
&sup5 “Tomás de Aquino, servindo-se da terminologia da tradição filosófica em que se encontra, explica: a fé é um « habitus », ou seja, uma predisposição constante do espírito, em virtude do qual a vida eterna tem início em nós e a razão é levada a consentir naquilo que não vê. Deste modo, o conceito de « substância » é modificado para significar que pela fé, de forma incoativa – poderíamos dizer « em gérmen » e portanto segundo a « substância » – já estão presentes em nós as coisas que se esperam: a totalidade, a vida verdadeira. E precisamente porque a coisa em si já está presente, esta presença daquilo que há-de vir cria também certeza: esta « coisa » que deve vir ainda não é visível no mundo externo (não « aparece »), mas pelo facto de a trazermos, como realidade incoativa e dinâmica dentro de nós, surge já agora uma certa percepção dela. ” Bento XVI, Carta encíclica Spe salvi, 30.11.2007, n. 7.
&sup6 “Il Dio degli inizi e delle promesse è il Dio dei compimenti. In Lui non c’è sì e no. (…) ma in Gesù Cristo c’è soltanto il sì alle promesse del Padre. Proprio su questo poggia la speranza del crsitiano.” Giovanni Moioli, L’esperienza spirituale, Edizoni Glossa, Milano 1994, p. 25.
&sup7 João Paulo II, Exortação apostólica pós-sinodal Ecclesia in Europa, 28.4.2003, n. 10
&sup8 Sagrada Congregação para os religiosos e Institutos seculares, Mutuae relationes, 14.5.1978, n.13.
&sup9 João Paulo II colocava em guarda as pessoas consagradas da tentação de voltar a ver o passado frente aos problemas que devem enfrentar no mundo de hoje. Um tentação que é cada vez mais forte quando se perdem as coordenadas da própria identidade: “Vós não tendes apenas uma história gloriosa para recordar e narrar, mas uma grande história a construir! Olhai o futuro, para o qual vos projecta o Espírito a fim de realizar convosco ainda grandes coisas. Fazei da vossa vida uma ardente expectativa de Cristo, indo ao encontro d´Ele como virgens prudentes que vão ao encontro do Esposo. Permanecei sempre disponíveis, fiéis a Cristo, à Igreja, ao vosso Instituto e ao homem do nosso tempo.” João Paulo II, Exortação apostólica pós-sinodal Vita consecrata, 25.3.1996, n. 110.
¹0 O teólogo da vida espiritual, Giovanni Moioli o expressa com os seguintes termos: “... dovremmo dire che è un contrasto, una tensione, una lotta tra speranze. L’uomo nuovo vive non sfuggendo a questa dialettica, ma accettandola e facendo in modo che non sia la speranza in autentica, ma quella autentica a dominare nella vita.” Giovanni Moioli, L’esperienza spirituale, Edizoni Glossa, Milano 1994, p. 25.
¹1 João Paulo II, Exortação apostólica pós-sinodal Ecclesia in Europa, 28.6.2003, n. 40.
¹2 Congregação para os Institutos de vida consagrada e as Sociedades de vida apostólica, O serviço da autoridade e a obediência, 11.5.2008, n. 13d.
¹3 Sagrada congregação para os religiosos e os Institutos seculares, Mutae relationes, 14.5.1978, n. 13b.
¹4 Ibídem.
¹5 João Paulo II, Exortação apostólica pós-sinodal Vita consecrata, 25.3.1996, n. 104.
¹6 Alessandro Pronzato, Alla ricerca delle virtù perdute, Piero Gribaudi Editore, Milano, 2000, pp. 130 – 135.
¹7 José Rivera, José María Iraburu, Espiritualidad católica, Ed. Centro de estudios de teología espiritual, Madrid, 1982, p. 282.
¹8 Para a explicação desta parte, nos apoiaremos no livro de Narciso Irala, Il controllo del cervello, Edizioni San Paolo, 1997, Milano.
¹9 Graziella Curti, Dalla minoranza alla minorità, en Consacrazione e servizio, Anno LIV n. 3 Marzo 2005, p. 24.
²0 João Paulo II, Exortação apostólica pós-sinodal Ecclesia in Europa, 28.6.2003, n. 104.







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